O orientador tem pouco tempo e muitos alunos. Um capítulo que chega com erro básico volta cheio de comentário, e a próxima reunião demora. O problema não é o comentário em si: é a semana que se perde entre um envio e outro, várias vezes, até a data da defesa.
A boa notícia é que boa parte do que volta riscado é previsível. Dá para conferir antes de mandar. Abaixo estão as seis perguntas que um orientador experiente faz ao ler um capítulo, na ordem em que vale a pena fazer.
1. O capítulo responde ao objetivo?
Comece pelo fim. Releia o objetivo do trabalho (ou o objetivo específico daquele capítulo) e pergunte, seção por seção: isso me leva até lá?
Seção que não leva ao objetivo vira o comentário mais comum de todos: “por que isso está aqui?”. Muitas vezes é um trecho bonito, que deu trabalho, mas que não serve à pergunta de pesquisa. Cortar dói menos agora do que depois de três rodadas de revisão.
2. Toda afirmação tem de onde veio?
Uma frase como “o ensino remoto prejudicou a aprendizagem” precisa de uma de duas coisas ao lado: uma citação ou um dado do seu próprio trabalho. Sem nenhuma das duas, é opinião, e o orientador vai marcar.
Um jeito rápido de conferir: leia só as frases que afirmam algo forte (as que têm “comprova”, “sempre”, “a maioria”, “é evidente”) e veja se cada uma tem apoio. Se não tiver, ou você acha a fonte, ou suaviza a frase.
3. Toda referência existe?
Parece óbvio, mas virou o erro mais perigoso desde que a IA entrou nos trabalhos acadêmicos. Uma referência inventada parece real: tem autor com nome plausível, revista conhecida, ano, páginas e até DOI. Só não existe.
Para cada referência, abra o link ou o DOI e confira se o título e os autores batem. Se você não acha a obra em lugar nenhum, ela não pode ficar no texto. Também vale conferir se a fonte diz mesmo o que você escreveu que ela diz: citar um autor para algo que ele não afirmou é um erro que a banca encontra.
Contamos um caso real, com a referência inventada e como ela foi pega, em Na prática: como um agente pegou uma citação inventada.
4. Os números batem?
Se o capítulo tem dados, todo número do texto precisa ser igual ao da sua tabela, planilha ou análise. Um percentual escrito de memória, arredondado diferente ou copiado de uma versão antiga da planilha é o tipo de erro que o orientador encontra em dois minutos e que tira a confiança no resto.
O mesmo vale para o número de participantes, de entrevistas ou de artigos analisados: ele precisa ser igual na introdução, na metodologia e nos resultados.
5. O método está descrito a ponto de outra pessoa repetir?
No capítulo de metodologia, a pergunta é: alguém com os mesmos materiais conseguiria fazer o mesmo estudo? Para isso o texto precisa dizer de onde vieram os dados, quantos eram, o que foi removido e por quê, e qual técnica foi usada. E as conclusões não podem ir além do que o método permite: se o estudo mostra associação, o texto não pode dizer que uma coisa causa a outra.
6. O texto tem cara de texto de IA?
Por último, a forma. Frase genérica que serviria para qualquer TCC (“No cenário atual, a tecnologia desempenha um papel cada vez mais relevante”) é a que mais irrita quem lê dezenas de trabalhos por semestre. Troque por um fato do seu trabalho. Outros sinais: conectivo repetido em todo parágrafo (“Além disso”, “Nesse sentido”), negrito espalhado no meio do texto e listas onde deveria haver parágrafo.
Gramática e ABNT também entram aqui, mas por último mesmo: não adianta acertar a vírgula de um parágrafo que vai ser cortado no passo 1.
Quanto tempo isso leva
Feito à mão, com cuidado, um capítulo de 15 páginas leva algumas horas: abrir cada referência, conferir cada número, reler cada seção contra o objetivo. É trabalho chato, mas é o que separa o capítulo que volta com dez comentários do que volta com dois.
No curso: a revisão em seis frentes
No TCC Verificado, essa conferência é o trabalho de uma equipe de IA. Quando um capítulo fica pronto, você pede a revisão e seis especialistas leem ao mesmo tempo, cada um com uma das perguntas acima: o Orientador (objetivo e argumentação), a Banca (a pergunta difícil), o Cita (se cada referência existe), o Dado (se cada número bate com os seus dados), o Método (se a metodologia se sustenta) e o Letra (forma e cara de IA).
Eles apontam o problema e onde está. Quem decide o que corrigir é você, e é por isso que você chega na reunião com o orientador sabendo explicar cada parte do capítulo.


